O governo alugou um edifício para colocar o Tribunal de Santa Maria da Feira que funciona num prédio, construído de raiz, em avançado estado de degradação. O mesmo governo que anunciou tão expedita medida não anunciou a necessária decência. Como é que um prédio construído e pago com dinheiros públicos se apresenta neste estado apenas 18 míseros anos depois da sua inauguração, com pompa e circunstância?
Como em tudo neste país a culpa não só morre solteira como se abafa. E perante isto ninguém pergunta nem ninguém questiona. Deve ser da orografia. Só pode.
30 abril 2008
28 abril 2008
Acudam! Ó da Guarda quem nos acode?
Um cidadão perseguido e acossado procura refugio numa esquadra de polícia. Nessa esquadra só está um agente de serviço. É sovado no interior perante a passividade do agente policial a quem a republica paga o salário. E no entanto ninguém reage. Sem que se perceba porque um indivíduo pode ser morto porque não parou numa operação policial e sai disparo. Remotamente, em Sacavém, um indivíduo ficou sem cabeça porque foi decapitado por um agente policial. Mais fresco: um agente policial está no recato do escuro com a amiga e porque um mirone se cola ao vidro saí disparo. Não um mas três. Em Moscavide um agente policial dentro de uma esquadra não dispara um único tiro para defender o obvio. Um indivíduo em fuga porque foi agredido e queria apresentar uma queixa. E, onde não poderia estar mais seguro é que é agredido. Pergunto: porque motivo o agente não usou disparos de intimidação ou de advertência? Quem autorizou a que apenas um e só um agente permanecesse de serviço numa esquadra? E se tiver uma borreira? Um AVC? Um enfarte? Entretanto por aqui, na dita de provinxia, agentes da polícia ficam horas emboscados com um radar apontado a quem passa. Noutra esquadra vão de carro policial ao café em frente tomar a bica. Outro caso lembra-nos que se o assunto for parcómetros existem meia dúzia deles a verificar os talões. Se sairmos para o mar então é o caos. Na investigação criminal é atropelo de competência atrás de atropelo. E agora até na floresta e no ambiente as policias medram que nem cogumelos em Fevereiro. Todas as polícias têm intervenção em tudo. Se houver gratificados para fazer ou obras na casa dum qualquer comandante aparecem sempre agentes. Para conduzir o capitão sai carro e agente. Para servir na messe sai agente. E por aí fora. E para proteger um cidadão, dentro de uma esquadra não se dispara um tiro? E não se justificam? E quer esta rapaziada o direito à greve? Só se for uma greve ausente porque a mais do resto o imobilismo já é, per si, uma greve.
Este episódio tem pelo menos o condão de nos lembrar que não estamos seguros e que os investimentos e aquisições na melhoria da operacionalidade das forças armadas continuam em velocidade parada. E isto num país onde querem à viva força recolher as armas e os explosivos que estão em mãos menos claras. Num país onde o carjacking já representa 16% da criminalidade da Policia Judiciária e onde os assaltos, tomada de reféns e roubos estão cada vez mais violentos.
Vai sendo pois tempo de tomarmos consciência e de nos começarmos a unir em torno de uma verdadeira polícia. Uma policia civil que á falta de forças armadas onde o conceito de intervenção interna (não só nas tarefas de natureza policial mas também de protecção civil o Exército não pode assumir o comando de nada) continua arredado. E no oásis que é a cabeça de quem nos governa o crime está a baixar. Claro. Como o desemprego do outro.
Este episódio tem pelo menos o condão de nos lembrar que não estamos seguros e que os investimentos e aquisições na melhoria da operacionalidade das forças armadas continuam em velocidade parada. E isto num país onde querem à viva força recolher as armas e os explosivos que estão em mãos menos claras. Num país onde o carjacking já representa 16% da criminalidade da Policia Judiciária e onde os assaltos, tomada de reféns e roubos estão cada vez mais violentos.
Vai sendo pois tempo de tomarmos consciência e de nos começarmos a unir em torno de uma verdadeira polícia. Uma policia civil que á falta de forças armadas onde o conceito de intervenção interna (não só nas tarefas de natureza policial mas também de protecção civil o Exército não pode assumir o comando de nada) continua arredado. E no oásis que é a cabeça de quem nos governa o crime está a baixar. Claro. Como o desemprego do outro.
24 abril 2008
17 abril 2008
11 abril 2008
08 abril 2008
04 abril 2008
09 março 2008
Crónicas do Queijo, II
Que os ruins não mudam o mundo isso, já o sabíamos, desde que nascemos. Que não vale a pena imitar o Sancho e combater os moinhos também já o sabemos desde que morávamos na raia. Que o Soares disse que devíamos ter direito à indignação também o disse se bem que ninguém o pareceu levar a sério. Agora que este país está de pantanas e que, nenhum empregado da Republica pretende fazer mais nada do que amealhar o pré, garantir tempo para a aposentadoria e passar incólume e sem chatices pelos deveres profissionais pensávamos que era a excepção mas afinal é a regra. Ora atente-se:
Sexta-feira, dia 7
Um tipo vem na A 25, que bem basta ter uma curva com proibição de circular a 80 km/h, entre o designado nó da Ratoeira, em Celorico e Fornos de Algodres. Pois acreditem que tem um sinal que estabelece o limite máximo de 100 km/h desde o nó da Guarda Sul até Fornos. Na descida do Alvendre, já o sabemos de há muito, montaram um radar sub-reptício enquanto os militares estão emboscados (nem a propósito a GNR tem o estatuto militarizado). A partir de Celorico a BT circula com carros caracterizados e sem sinalizar a marcha acelera para ver se o incauto condutor cai na esparrela. E assim foi. Pouco antes da saída para Fornos escolheram os condutores e toca a sair.
Quinta-feira, dia 6
Um cidadão morador em Viseu vê a casa apedrejada. Vidros partidos, estragos e aborrecimentos. Quanto vai à polícia apresentar queixa que não pode e que não aceitam. No local é que devia ter chamado a polícia, dizem-lhe. Então é simples vou para casa e chamo-vos. Resposta pronta: agora já sabemos. Mas aceitam uma denúncia. E entretanto não se faz nada. E claro as denuncias anónimas continuam a ser investigadas.
Domingo, dia 9
Esta madrugada passei à porta de uma delegacia. Nem um zumbido nem uma luz nada que indicasse que ali estava um departamento que tem actividade 24 horas por dia. Por certo ou foram ao prego (coisa difícil que eu andava atrás do mesmo) ou roncavam que nem Zé Carioca em tarde de Segunda-feira.
Sexta-feira, dia 7
Um tipo vem na A 25, que bem basta ter uma curva com proibição de circular a 80 km/h, entre o designado nó da Ratoeira, em Celorico e Fornos de Algodres. Pois acreditem que tem um sinal que estabelece o limite máximo de 100 km/h desde o nó da Guarda Sul até Fornos. Na descida do Alvendre, já o sabemos de há muito, montaram um radar sub-reptício enquanto os militares estão emboscados (nem a propósito a GNR tem o estatuto militarizado). A partir de Celorico a BT circula com carros caracterizados e sem sinalizar a marcha acelera para ver se o incauto condutor cai na esparrela. E assim foi. Pouco antes da saída para Fornos escolheram os condutores e toca a sair.
Quinta-feira, dia 6
Um cidadão morador em Viseu vê a casa apedrejada. Vidros partidos, estragos e aborrecimentos. Quanto vai à polícia apresentar queixa que não pode e que não aceitam. No local é que devia ter chamado a polícia, dizem-lhe. Então é simples vou para casa e chamo-vos. Resposta pronta: agora já sabemos. Mas aceitam uma denúncia. E entretanto não se faz nada. E claro as denuncias anónimas continuam a ser investigadas.
Domingo, dia 9
Esta madrugada passei à porta de uma delegacia. Nem um zumbido nem uma luz nada que indicasse que ali estava um departamento que tem actividade 24 horas por dia. Por certo ou foram ao prego (coisa difícil que eu andava atrás do mesmo) ou roncavam que nem Zé Carioca em tarde de Segunda-feira.
08 março 2008
by Adriana Mezzadri
"Siento que te conozco hace tiempo,
de otro milenio, de otro cielo.
Dime si me recuerdas aun,
solo con tocar tus manos
puedo revelarte mi alma.
Dime si reconoces mi voz...
Ye, yeh, yeh, eh...
Siento que me desnudas la mente,
cuando me besas en la frente.
Dime si traigo marcas de ayer.
Solo con tocar tus manos
puedo revelarte mi alma.
Dime si reconoces mi voz...
Ye, yeh, yeh, eh...(bis)
Siento que te conozco,
y siento que me recuerdas,
dime si reconoces mi voz.
Ye, yeh, yeh, eh...
Siento que te conozco,
siento que me recuerdas
Dime si reconoces mi voz..."
de otro milenio, de otro cielo.
Dime si me recuerdas aun,
solo con tocar tus manos
puedo revelarte mi alma.
Dime si reconoces mi voz...
Ye, yeh, yeh, eh...
Siento que me desnudas la mente,
cuando me besas en la frente.
Dime si traigo marcas de ayer.
Solo con tocar tus manos
puedo revelarte mi alma.
Dime si reconoces mi voz...
Ye, yeh, yeh, eh...(bis)
Siento que te conozco,
y siento que me recuerdas,
dime si reconoces mi voz.
Ye, yeh, yeh, eh...
Siento que te conozco,
siento que me recuerdas
Dime si reconoces mi voz..."
05 março 2008
Cronicas do queijo
Ali acima por onde ainda corre o Mondego um fazedor de quadros foi reclamar o pagamento de uma divida. Das antigas. Nos tempos Santos lá se haveria de remediar o problema. Agora parece que voltamos aos tempos do Julio e dou comigo por mim adentro a pensar nisto. Diz o Zeze, homem farto e de portentoso solar que ele que peça desculpas. E que traga um cartaz com elas. E os subordinados e já agora o raio que parta o Zeze. Que raio de tempos estes em que és o melhor e quando a tormenta arriba tornas-te no pior. Antes o outro, mal por mal o outro lá mitigava o fraco peculio. Cito-te o mestre, o grande obrador dessa imensa capital:
"Pega o leme navegador.
O leme que não seguras de tantas vidas à deriva
Que não controlas na noite escura.
O leme... "
Para te dizer que a vida solarenga não é só queijo e verdes. Se existe apaga.
"Pega o leme navegador.
O leme que não seguras de tantas vidas à deriva
Que não controlas na noite escura.
O leme... "
Para te dizer que a vida solarenga não é só queijo e verdes. Se existe apaga.
02 março 2008
27 fevereiro 2008
26 fevereiro 2008
Os donos da noite viseense
Conta-me gente sólida que na última sexta-feira quem quis entrar numa das discotecas do centro da cidade tinha que largar à entrada 10 €. Assim sem mais e sem receber sequer um comprovativo de pagamento. Claro que quem não tem cu não se mete a paneleiro e claro que pagar sem ter o respectivo recibo nunca. Mas as mesmas pessoas deslocaram-se a outra discoteca, esta já na Ribeira e propriedade dos mesmos. Aqui verificou-se uma novidade: o alinhamento do criativo DJ colocou toda a gente em debandada da pista. E nem assim o bom do rapaz, altivo e arrogante quanto baste, inverteu a tendência.
Mas o que me preocupa nem são os preços que se praticam nem a entrega de recibo. Essa é uma clara, nítida e despudorada acção de evasão fiscal e deve haver gente nas finanças que possa fiscalizar isso. Nas finanças ou na ASAE, que também lá há matéria para esse foro. Até se pagava e mais não fora a nítida falta de qualidade, a grosseria dos funcionários e a altivez de quem dirige tão famigerado espaço. Entretanto estes é que sã os patrões da noite e aparecem, impávidos e serenos, nos jornais a aplaudir a tão redução de horários no centro histórico. Estamos para ver se o Rossio também é parte desse casco velho. Entretanto, provavelmente os últimos senhores da noite em Viseu, bares como o Obviamente e o Irish (este em obras) vão sendo apertados com uma malha fina ajudada pelos freteiros do costume. O Obviamente já fechava às quatro da manha e ainda tinha o nome de Postigo. É por isso que quando vemos na Assembleia Municipal gente como o Fernando Figueiredo levantar e apontar o dedo sorrimos. Não de condescendência mas de concordância. Estão a matar o centro histórico em nome do sossego dos moradores. E será que os moradores exigem esse silêncio? A ver vamos essa guerra dos horários entretanto quem quiser qualidade na noite viseense e com as excepções atrás referidas tem que mudar, não de bairro mas de cidade.
Mas o que me preocupa nem são os preços que se praticam nem a entrega de recibo. Essa é uma clara, nítida e despudorada acção de evasão fiscal e deve haver gente nas finanças que possa fiscalizar isso. Nas finanças ou na ASAE, que também lá há matéria para esse foro. Até se pagava e mais não fora a nítida falta de qualidade, a grosseria dos funcionários e a altivez de quem dirige tão famigerado espaço. Entretanto estes é que sã os patrões da noite e aparecem, impávidos e serenos, nos jornais a aplaudir a tão redução de horários no centro histórico. Estamos para ver se o Rossio também é parte desse casco velho. Entretanto, provavelmente os últimos senhores da noite em Viseu, bares como o Obviamente e o Irish (este em obras) vão sendo apertados com uma malha fina ajudada pelos freteiros do costume. O Obviamente já fechava às quatro da manha e ainda tinha o nome de Postigo. É por isso que quando vemos na Assembleia Municipal gente como o Fernando Figueiredo levantar e apontar o dedo sorrimos. Não de condescendência mas de concordância. Estão a matar o centro histórico em nome do sossego dos moradores. E será que os moradores exigem esse silêncio? A ver vamos essa guerra dos horários entretanto quem quiser qualidade na noite viseense e com as excepções atrás referidas tem que mudar, não de bairro mas de cidade.
24 fevereiro 2008
23 fevereiro 2008
Saberei cumpir.
Do Provedor e com inteira justiça. Mais reflexão e menos imediatismo. Saberei cumprir.
"Os dez artigos do Código Deontológico do Jornalista constituem uma carta de deveres e de interdições que balizam um exercício correcto da profissão, criando condições necessárias à existência de um jornalismo de qualidade.
Como adiante se verá, são condições necessárias, mas não forçosamente suficientes, sobretudo se os profissionais de Informação encararem o Código Deontológico como é corrente interpretar-se a lei: tudo o que não é expressamente proibido é permitido ou, no mínimo, não é ilegal.
Na actividade jornalística há inúmeras situações que estão a montante da deontologia e que remetem para uma ética da profissão, quando não para um simples julgamento que revele bom senso. Para quem se interessa por estes problemas, o provedor recomenda a segunda edição, publicada em 2007, do livro Journalism Ethics and regulations, da autoria de Chris Frost, professor de jornalismo na Liverpool John Moores University, no Reino Unido. A obra tem, entre muitos outros, o mérito de iluminar um caminho tortuoso, fornecendo não só pistas de reflexão, mas ainda recomendações práticas, devidamente sustentadas, de utilidade indiscutível em tempos de tempestades de credibilidade no mundo dos media.
Vem tudo isto a propósito de um protesto do leitor João Mergulhão (posteriormente, recebeu-se mensagem, de teor semelhante, assinada pelo leitor Oscar Mascarenhas), manifestando o seu desagrado por uma notícia, publicada na edição de 12 de Fevereiro, sob o título "Estudante de 19 anos aborta na escola". O motivo da indignação dos leitores está no facto de o texto, que teve chamada na primeira página, identificar a jovem, com o nome completo, e ainda mencionar a sua origem étnica.
A pedido do provedor, a editora da secção, Marina Marques, justifica-se: "A opção pela identificação da jovem foi ponderada e decidida com base no facto de esta ser maior de idade e de não ter sido feito qualquer pedido de reserva a quem acompanhou o caso. Aliás, o próprio director da Fundação (nota do provedor: trata-se da escola frequentada pela jovem) promoveu, no dia em que o DN publicou a notícia, uma conferência de imprensa em que participaram algumas das alunas mais próximas da estudante em causa e que contaram o episódio sem qualquer tipo de reservas, como demonstra o texto da Lusa. Quanto à referência à sua origem, decidiu-se por tal, por a Fundação Joaquim dos Santos ter acordos com vários países dos PALOP e ser frequentada, na sua grande maioria em regime de internato, por alunos oriundos desses países. Não houve qualquer intenção de prejudicar ou de rentabilizar a importância destas informações, como prova o facto de ambas só aparecerem no terceiro parágrafo do texto."
Comecemos pelo que é inequívoco: não se vislumbra um único argumento aceitável para a referência à origem étnica da jovem. É, neste caso, um elemento informativo inteiramente dispensável, sem interesse público, que não traz à notícia qualquer espécie de mais-valia. Ou seja, os leitores não ficaram, por isso, com um melhor entendimento do episódio, incorrendo-se numa violação clara do artigo oitavo do Código Deontológico ("O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidades ou sexo"). Note-se que não se põem, aqui, em causa as intenções referidas por Marina Marques, mas sim o resultado objectivo da revelação, susceptível de causar sofrimento ou indignação a terceiros. Para se entender melhor a perspectiva do provedor ou o que dizem os códigos, basta, por exemplo, pensar que, no caso de Barak Obama, a menção da sua origem étnica é um elemento fundamental para um enquadramento correcto da envolvente da sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos.
É de elementar justiça referir que o DN tem por tradição e prática corrente ser cuidadoso em circunstâncias semelhantes. Num breve comentário enviado ao provedor, complementar das explicações de Marina Marques, o director adjunto Rui Hortelão refere que, no mesmo dia em que foi elaborada a edição do DN aqui em discussão, procedeu-se à eliminação, num título, de uma palavra que identificava a nacionalidade de dois supostos assassinos. E procedeu-se bem, acrescenta o provedor.
Rui Hortelão aproveita para informar que o DN, através da sua pessoa, integra o Grupo de Reflexão sobre o Tratamento da Temática da Imigração nos Media, que "está a preparar um grande estudo junto dos jornalistas portugueses".
O segundo aspecto deste episódio tem a ver com a divulgação do nome da jovem. É certo que o Código Deontológico não interdita (refere-se apenas a menores e a jovem tem já 19 anos), mas é legítimo interrogarmo- -nos sobre que valor noticioso tem essa identificação. A resposta parece simples: nenhum; pelo contrário, traz-se ao espaço público a identidade de alguém em situação de particular vulnerabilidade, claramente incapaz de tomar medidas preventivas neste domínio. Ou seja, estamos na esfera da ética ou do linear bom senso. Se, porventura, as colegas da estudante ou os responsáveis da escola não foram suficientemente cuidadosos na protecção da privaci-dade da jovem, cabia ao jornalista, e ao jornal, essa decisão criteriosa.
Note-se, a terminar, que o texto da agência Lusa em parte alguma menciona a identidade da jovem (nem sequer das colegas cujos depoimentos são transcritos). E muito menos a origem étnica.
Definitivamente, a não repetir..."
"Os dez artigos do Código Deontológico do Jornalista constituem uma carta de deveres e de interdições que balizam um exercício correcto da profissão, criando condições necessárias à existência de um jornalismo de qualidade.
Como adiante se verá, são condições necessárias, mas não forçosamente suficientes, sobretudo se os profissionais de Informação encararem o Código Deontológico como é corrente interpretar-se a lei: tudo o que não é expressamente proibido é permitido ou, no mínimo, não é ilegal.
Na actividade jornalística há inúmeras situações que estão a montante da deontologia e que remetem para uma ética da profissão, quando não para um simples julgamento que revele bom senso. Para quem se interessa por estes problemas, o provedor recomenda a segunda edição, publicada em 2007, do livro Journalism Ethics and regulations, da autoria de Chris Frost, professor de jornalismo na Liverpool John Moores University, no Reino Unido. A obra tem, entre muitos outros, o mérito de iluminar um caminho tortuoso, fornecendo não só pistas de reflexão, mas ainda recomendações práticas, devidamente sustentadas, de utilidade indiscutível em tempos de tempestades de credibilidade no mundo dos media.
Vem tudo isto a propósito de um protesto do leitor João Mergulhão (posteriormente, recebeu-se mensagem, de teor semelhante, assinada pelo leitor Oscar Mascarenhas), manifestando o seu desagrado por uma notícia, publicada na edição de 12 de Fevereiro, sob o título "Estudante de 19 anos aborta na escola". O motivo da indignação dos leitores está no facto de o texto, que teve chamada na primeira página, identificar a jovem, com o nome completo, e ainda mencionar a sua origem étnica.
A pedido do provedor, a editora da secção, Marina Marques, justifica-se: "A opção pela identificação da jovem foi ponderada e decidida com base no facto de esta ser maior de idade e de não ter sido feito qualquer pedido de reserva a quem acompanhou o caso. Aliás, o próprio director da Fundação (nota do provedor: trata-se da escola frequentada pela jovem) promoveu, no dia em que o DN publicou a notícia, uma conferência de imprensa em que participaram algumas das alunas mais próximas da estudante em causa e que contaram o episódio sem qualquer tipo de reservas, como demonstra o texto da Lusa. Quanto à referência à sua origem, decidiu-se por tal, por a Fundação Joaquim dos Santos ter acordos com vários países dos PALOP e ser frequentada, na sua grande maioria em regime de internato, por alunos oriundos desses países. Não houve qualquer intenção de prejudicar ou de rentabilizar a importância destas informações, como prova o facto de ambas só aparecerem no terceiro parágrafo do texto."
Comecemos pelo que é inequívoco: não se vislumbra um único argumento aceitável para a referência à origem étnica da jovem. É, neste caso, um elemento informativo inteiramente dispensável, sem interesse público, que não traz à notícia qualquer espécie de mais-valia. Ou seja, os leitores não ficaram, por isso, com um melhor entendimento do episódio, incorrendo-se numa violação clara do artigo oitavo do Código Deontológico ("O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidades ou sexo"). Note-se que não se põem, aqui, em causa as intenções referidas por Marina Marques, mas sim o resultado objectivo da revelação, susceptível de causar sofrimento ou indignação a terceiros. Para se entender melhor a perspectiva do provedor ou o que dizem os códigos, basta, por exemplo, pensar que, no caso de Barak Obama, a menção da sua origem étnica é um elemento fundamental para um enquadramento correcto da envolvente da sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos.
É de elementar justiça referir que o DN tem por tradição e prática corrente ser cuidadoso em circunstâncias semelhantes. Num breve comentário enviado ao provedor, complementar das explicações de Marina Marques, o director adjunto Rui Hortelão refere que, no mesmo dia em que foi elaborada a edição do DN aqui em discussão, procedeu-se à eliminação, num título, de uma palavra que identificava a nacionalidade de dois supostos assassinos. E procedeu-se bem, acrescenta o provedor.
Rui Hortelão aproveita para informar que o DN, através da sua pessoa, integra o Grupo de Reflexão sobre o Tratamento da Temática da Imigração nos Media, que "está a preparar um grande estudo junto dos jornalistas portugueses".
O segundo aspecto deste episódio tem a ver com a divulgação do nome da jovem. É certo que o Código Deontológico não interdita (refere-se apenas a menores e a jovem tem já 19 anos), mas é legítimo interrogarmo- -nos sobre que valor noticioso tem essa identificação. A resposta parece simples: nenhum; pelo contrário, traz-se ao espaço público a identidade de alguém em situação de particular vulnerabilidade, claramente incapaz de tomar medidas preventivas neste domínio. Ou seja, estamos na esfera da ética ou do linear bom senso. Se, porventura, as colegas da estudante ou os responsáveis da escola não foram suficientemente cuidadosos na protecção da privaci-dade da jovem, cabia ao jornalista, e ao jornal, essa decisão criteriosa.
Note-se, a terminar, que o texto da agência Lusa em parte alguma menciona a identidade da jovem (nem sequer das colegas cujos depoimentos são transcritos). E muito menos a origem étnica.
Definitivamente, a não repetir..."
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